Usos do "Se"
E aí, gente, tudo bom? Hoje trataremos de um assunto um pouco mais técnico da área: as possíveis classificações do “se”.
É importante lembrar, inicialmente, que existem palavras aparentemente iguais, mas pertencem a classes morfológicas diferentes. Um caso clássico é o “a”, existindo como artigo (A menina chegou), pronome oblíquo (Ele a chamou) e preposição (Chegou a uma conclusão). Com o “se” ocorre o mesmo, existindo a conjunção (Se eu pudesse, faria) e pronome oblíquo (O homem se perdeu).
Nos exames vestibulares é comum ser cobrada a diferenciação entre os quatro usos do pronome oblíquo “se”. Falaremos o pronome reflexivo, a partícula integrante, a partícula apassivadora e o índice de indeterminação do sujeito.
Pronome reflexivo
“O menino se cortou”
Estão lembrados da voz reflexiva? Ela ocorre quando o sujeito pratica e recebe a ação descrita no verbo, como na frase acima (O menino se cortou), que poderia ser uma paráfrase de “O menino cortou a si mesmo”. Quando o se faz referência ao sujeito da oração, indicando que ele também sofre a ação, ele será um pronome reflexivo e, sintaticamente, classificado como Objeto Direto (uma vez que ele complementa o sentido do verbo transitivo direto cortar, no exemplo supracitado).
Partícula Integrante
“Ele se queixou”
No português existem verbos que pedem a presença de um pronome para que faça sentido, como os verbos: queixar-se, chamar-se (Ele se chama João), acabar-se (Ela se acabou na festa), entre outros. Quando o verbo for pronominal, o se será uma partícula integrante, não tendo função sintática. Note que, diferentemente do pronome reflexivo, o sujeito não pratica e recebe a ação (ninguém se queixa para si mesmo, chama a si mesmo ou acaba consigo).
Resumindo: quando o “se” não indicar que o sujeito pratica e recebe a ação, ele será uma partícula integrante.
Tranquilos esses dois? Antes de irmos para os próximos vamos aproveitar pra falar sobre a diferença entre dois tipos de sujeito: o paciente e o indeterminado.
O sujeito paciente já é nosso conhecido, é quando ele sofre a ação indicada, como em “As roupas foram dobradas” ou “Dobraram-se as roupas” (repare que ele é o sujeito, pois há a concordância com o verbo).
Já o sujeito indeterminado, ocorrerá em frases como “Precisa-se de empregadas”. Note que empregadas não é sujeito da oração, uma vez que não há concordância (verbo no singular, empregadas no plural) e é impossível reescrever essa frase na forma “De empregadas são precisadas”, assim como foi possível fazer anteriormente. Tal construção também pode ser encontrada em frases como “Era-se feliz” ou “Vive-se bem”.
Somente com esses critérios fica complicado saber quando teremos um sujeito paciente ou indeterminado, portanto, vamos esquematizá-los para que não haja dúvidas?
Partícula Apassivadora
“Alugam-se casas”
Notaram algo interessante nos verbos acima? Tanto o verbo alugar quanto o verbo dobrar (quando na voz ativa), normalmente, são VERBOS TRANSITIVOS DIRETOS (VTD). Além disso, uma vez que o sujeito é paciente, o verbo poderá variar em número, aparecendo no singular ou plural (vende-se carro, vendem-se carros).
Índice de Indeterminação do Sujeito
“Precisa-se de Empregadas”
“Era-se feliz”
“Vive-se bem”
Os verbos descritos acima, diferentemente dos da Partícula Apassivadora, não são VTD. O verbo precisar é um Verbo Transitivo Indireto (VTI); o verbo ser, de ligação (VL) e o verbo viver, intransitivo (VI). Essas construções sempre estarão na voz ativa e o verbo SEMPRE estará no singular.
Critério prático:
Verifique se o verbo está no singular ou plural. Caso esteja no plural, temos partícula apassivadora. Caso ele esteja no singular, identifique a transitividade do verbo. Caso ele seja VTD, teremos partícula apassivadora. Se ele for VTI, VI ou VL, teremos índice de indeterminação do sujeito.
Entenderam? Caso você tenha ficado na dúvida sobre o que é um VTD, VL, existe um artigo sobre transitividades verbais aqui que pode te ajudar ;)
Qualquer dúvida, entrem em contato. Um beijo no coração e até a próxima.
Ivan Perina, Professor de Língua Portuguesa, Graduando em Letras pela Unicamp